Discursos vazios: o preconceito nas relações
- Ana Paula Cavalheiro

- 22 de set. de 2020
- 2 min de leitura

A fala é um instrumento importante dos tempos atuais. Sem ela, haveria certa dificuldade em se fazer entender em toda sua complexidade de razões e magnitudes psicoemocionais, porém, vive-se em tempos de discursos vazios.
As pessoas se jactam em dizer que são isso ou aquilo, que possuem tais e outras características, que fazem e acontecem, mas, na realidade, são falas vazias de significado, repletas de preconceitos embutidos e de não ações.
Em tempos de discursos ocos, como confiar nas pessoas e investir em relacionamentos de longo prazo? Como acreditar que ainda é possível construir vínculos afetivos significativos?
A esperança transita na ideia de que existam alguns passageiros perdidos no mundo, que vão além de retóricas infundadas e enxerguem além de um casco embelezado. E por quê? Por razões que fogem aos títulos e posições hierárquicas, razões estas que fogem as posses materiais, e se encontram na pureza das relações primevas, no colo de mãe, na presença paterna, na justiça das interações fraternais, no amor compartilhado, nos cuidados, no zelo, e, principalmente, no desejo da existência.
Qual a mensagem para aqueles que insistem na destruição identitária do outro, que se esforçam para diminuir e rechaçar as diferenças como uma lepra a ser dizimada, pessoas essas que se fazem crer honestas, boas e autênticas, mas, não passam de mentes estreitas, ações atrofiadas e corações amargurados?
Compreensível é a busca por saúde, qualidade de vida, bem estar, paz, amizade, amor, todavia, não à custa da miséria emocional do outro, que jaz ao seu lado nas mesmas buscas, medos e incertezas.
Não é possível interferir na escolha de outro alguém, no desejo e preferências, afinal somos seres de gostos requintados, mas, não se pode tolerar que os estigmas e padrões consumistas sociais, econômicos e políticos determinem o valor da vida, o valor humano, das relações possíveis e inimagináveis.
A busca da felicidade não está no preconceito, que paralisa, descaracteriza e mata, e sim na fluência necessária das conexões de corpo e alma, nas sensações que transbordam o toque e acalentam um sentir mais intenso e recheado de mil faces de arlequim.
Saúdo a vida, celebro a existência humana e reverencio os corações genuinamente verdadeiros em seus discursos fartos e atuações vibrantes. O amor, a felicidade e a paz não se misturam com as bordas dilacerantes de preconceitos insípidos mascarados de discursos vazios.




Comentários